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Objectivo: Apresentar produtos usados no tratamento de feridas

As feridas cirúrgicas limpas cicatrizam, de forma geral, rapidamente. As feridas crónicas, onde se incluem as úlceras de pressão e úlceras de hipertensão venosa, levantam problemas complexos que podem ser abordados de forma simultânea.

A colonização bacteriana das feridas crónicas é uma constante, com o consequente risco de representar uma porta de entrada para infecções profundas ou sistémicas (celulite, osteomielite, septicémia). Deste modo, deve ser dada a maior atenção aos cuidados locais, nomeadamente à limpeza cirúrgica e à utilização de pensos adequados, factores que reduzem os riscos apontados e facilitam o processo cicatricial. Não deve ser utilizada antibioticoterapia local ou sistémica para resolver problemas de colonização. Caso se verifique infecções com envolvimento mais profundo (erisipela, celulite) está indicada a antibioticoterapia sistémica.

Consegue-se diminuição da dor e recuperação mais rápida com pensos de alginatos, hidrocolóides, hidrogeles e hidropolímeros.

A escolha entre os diferentes produtos varia em função de três parâmetros principais:

a) antecedentes pessoais (história de alergias ou intolerâncias);

b) características clínicas da ferida (bordos, extensão, profundidade, localização, infecção secundária e fase de cicatrização);

c) sintomatologia geral da ferida (dor, hemorragia, sinais inflamatórios).

 

Estas diferentes classes de pensos promovem:

1 - a cicatrização em meio húmido, propicia a migração celular, nomeadamente de macrófagos;

2 - a protecção contra a conspurcação por outras bactérias e traumatismos, além de um maior conforto para o doente.

 

De modo sintético, são estas as características de cada tipo de penso:

Hidrocolóides

- Composição: polímeros de carboximetilcelulose (em pectina ou gelatina), em filme de poliuretano;

- Propriedades: moderadamente absorventes; semipermeáveis (permitem trocas gasosas); aderentes à pele sã (não aderentes à ferida); boa moldagem às superfícies irregulares;

- Indicações: feridas pouco exsudativas; promovem a granulação; podem ser usados em todos os estádios da cicatrização;

- Efeitos adversos: maceração ao nível dos bordos; odor fétido;

- Apresentação: placas adesivas de dimensões variáveis ou pasta;

- Modo e ritmo de aplicação: substituição cada 5 a 7 dias; não necessitam de penso secundário.

Hidrogeles

- Composição: polímeros de celulose (carboximetilcelulose), hidratados a 75%;

- Propriedades: libertam água no leito da ferida, hidratando-a; pouco absorventes; não aderentes; impermeáveis; transparentes (permitem inspecção);

- Indicações: feridas desidratadas, sem exsudado; favorecem a re-epitelização;

- Efeitos adversos: "repassamento" do penso, quando mal ocluído;

- Apresentação: placas não adesivas de dimensões variáveis; geles;

- Modo e ritmo de aplicação: substituição cada 3 a 5 dias; necessitam de penso secundário adequado (ex: película oclusiva de poliuretano ou hidrocolóide).

Alginatos

- Composição: polímeros de ácidos algínicos (alginato de cálcio);

- Propriedades: muito absorventes e hemostáticos; favorecem o desbridamento da ferida; permeáveis; não aderentes;

- Indicações: feridas muito exsudativas ou hemorrágicas; podem ser aplicados em feridas infectadas; diminuem o odor;

- Efeitos adversos: exsicação da ferida (podem associar-se a hidrogeles); - Apresentação: compressas não adesivas;

- Modo e ritmo de aplicação: substituição cada 3 a 5 dias; necessitam de penso secundário (película oclusiva de poliuretano).

Hidropolímeros

- Composição: "espuma" de poliuretano hidrofílica revestida de filme impermeável (também designados por "Hidrocelulares");

- Propriedades: muito absorventes; não aderentes à ferida; moldáveis;

- Indicações: em todos os estádios do processo cicatricial; em todos os tipos de feridas (incluindo "cavidades"); diminuem o odor;

- Efeitos adversos: exsicação das feridas;

- Apresentação: compressas adesivas e não adesivas de espuma adaptáveis às cavidades;

- Modo e ritmo de aplicação: substituição de 3 a 5 dias; as apresentações não adesivas necessitam de penso secundário.

Carvão activado

Os apósitos de carvão activado são constituídos por duas camadas (interna e externa) de tecido não tecido no interior das quais existe uma camada intermédia de carvão activado. Este caracteriza-se por apresentar uma elevada capacidade de desodorização uma vez que adsorve à sua superfície as moléculas responsáveis pelo mau cheiro. Para além dessas moléculas, absorve água, bactérias e outros componentes presentes no exsudado. Essas propriedades fazem com que estes apósitos estejam indicados em feridas com mau odor, infectadas ou com quantidade moderada de exsudados nomeadamente úlceras de pressão e de perna (de origem vasculares ou diabética), bem como em feridas oncológicas. No caso de feridas pouco exsudativas o penso pode aderir à pele pelo que, pode ser aplicado hidrogel na ferida previamente à aplicação do penso. Para que o carvão permaneça activo durante mais tempo alguns pensos associam ao carvão activado alginatos e carboximetilcelulose (ex. Carboflex®) para absorção de exsudados. Outros pensos associam ao carvão activado prata, a qual tem propriedades bactericidas (Actisorb Silver®). Estes apósitos não devem ser cortados, devido ao risco de dispersam das partículas de carvão na ferida constituindo corpos estranhos. Requerem um penso secundário e a sua mudança deve ser diária em feridas infectadas, podendo permanecer mais tempo nos casos e feridas pouco exsudativas.